Rondônia vive carência de uma grande liderança de esquerda
- 12 de jan.
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E novos nomes tentam ocupar esse espaço.
Rondônia sempre foi um estado de forte disputa ideológica, mas com uma marca recente: a esquerda, apesar de ter base social e história, parece não ter hoje um “rosto” majoritário, com musculatura eleitoral e capacidade de unificar um campo inteiro.
O fenômeno não é exatamente novo — mas se intensificou com o avanço do conservadorismo no estado e com a reorganização do eleitorado desde 2018. No meio desse cenário, surgem vozes, articulações e apostas: algumas com trajetória partidária consolidada, outras com forte presença pública e discurso alinhado à esquerda, e também nomes que podem estar migrando para esse campo por estratégia eleitoral.
O resultado é um tabuleiro fragmentado: há esquerda, mas ainda falta, para muitos, um protagonista incontestável.

O peso do passado: quando a esquerda teve nome, máquina e voto
Quando se fala em esquerda com estrutura em Rondônia, um nome sempre retorna ao debate: Roberto Sobrinho, ex-prefeito de Porto Velho por dois mandatos (2005–2012), com origem no movimento sindical e histórico ligado ao PT.
Sobrinho representa um período em que a esquerda rondoniense conseguiu reunir elementos raros em conjunto: militância organizada, força eleitoral na capital e presença institucional robusta. Sua trajetória, no entanto, também atravessou controvérsias e disputas jurídicas que marcaram a política local nos anos seguintes.
Além dele, a esquerda rondoniense já teve protagonismo relevante no plano estadual com Fátima Cleide, que foi senadora (2003–2010) e disputou o governo em 2006, levando a esquerda a um patamar competitivo naquele ciclo.
E, no interior e em bases sindicais e rurais, Anselmo de Jesus se consolidou como quadro histórico do PT ligado ao movimento dos trabalhadores rurais, com mandatos na Câmara Federal e atuação sindical.
Há ainda a memória de Eduardo Valverde, ex-deputado federal do PT e candidato ao governo em 2010, lembrado como figura de articulação e presença partidária no estado — falecido em 2011.
Esses nomes ajudam a explicar por que, hoje, quando se diz que “falta uma grande figura de esquerda”, o que se está dizendo, na prática, é: falta alguém que una história, densidade eleitoral, estrutura partidária e narrativa pública.
O presente: vozes com identidade de esquerda — mas ainda sem hegemonia
Nos últimos tempos, quem tem aparecido com força como voz pública alinhada à esquerda, especialmente na capital, é Samuel Costa: advogado, professor e também identificado como ativista de direitos humanos, com presença política e eleitoral recente.
Samuel ganhou espaço justamente por fazer o que muitos quadros evitam: se posicionar, sustentar discurso e disputar debate em um ambiente onde a esquerda costuma enfrentar resistência mais alta. Em 2024, ele concorreu à Prefeitura de Porto Velho pela REDE, segundo o registro oficial da Justiça Eleitoral.
Ao mesmo tempo, a própria movimentação de articulações progressistas na capital — como alianças e frentes entre partidos do campo — indica que existe um esforço real de organização e sobrevivência eleitoral, ainda que isso não se traduza automaticamente em um “candidato natural” ao governo.
E aqui está um ponto-chave: ter identidade ideológica e presença pública não é o mesmo que ter condição de majoritária estadual. Rondônia é um estado de dimensões e dinâmicas regionais muito diferentes: Porto Velho não decide sozinha, e o interior costuma ser determinante.
Expedito Netto: ruptura, reposicionamento e a aposta que pode mudar o jogo
Nos bastidores da política rondoniense, o nome mais citado como possível “novo rosto” da esquerda é o do ex-deputado federal Expedito Netto.
Expedito tem trajetória nacional e já foi deputado federal. Mas o elemento novo — e explosivo — está no movimento político que vem sendo noticiado por veículos locais: tratativas para filiação ao PT e construção de um caminho para disputar o governo em 2026.
Se esse movimento se confirmar e se consolidar, ele cria um fato político: um nome com recall, estrutura e potencial de capilaridade pode passar a representar o campo ligado ao governo Lula no estado.
Mas a pergunta inevitável — e que deve atravessar toda essa discussão — é: Expedito Netto será percebido como esquerda “de identidade” ou como esquerda “de circunstância”?
Porque o desafio, para qualquer novo protagonista progressista em Rondônia, não é apenas se filiar a um partido: é construir credibilidade programática, fazer ponte com movimentos sociais, dialogar com as bases históricas (educação, campo, sindicalismo, direitos humanos) e, ao mesmo tempo, ser viável para uma eleição majoritária dura.
Confúcio Moura: aliado de Lula, mas nem sempre lido como “candidato de esquerda”
No meio desse vazio, existe uma figura com densidade eleitoral e institucional gigantesca: Confúcio Moura.
Confúcio foi governador de Rondônia por dois mandatos e, desde 2019, é senador. Ele também é visto como aliado do governo federal em várias pautas, e seu posicionamento nacional frequentemente o aproxima do campo governista.
Ainda assim, existe uma leitura recorrente no ambiente político: Confúcio tem mais cara de “centro moderado com diálogo” do que de “liderança de esquerda”, no sentido identitário e simbólico. Ele transita, constrói alianças amplas e não costuma vestir a camisa ideológica do modo como militâncias tradicionais esperam.
Isso não diminui seu peso — mas ajuda a explicar por que, mesmo com Confúcio presente, ainda há quem diga que falta um nome de esquerda “claro”, com discurso, identidade e mobilização.
Novas e possíveis apostas: o campo progressista além dos políticos tradicionais
Outro sinal interessante é que a esquerda e o campo progressista podem buscar protagonismo fora do circuito político tradicional, especialmente em pautas ambientais e indígenas, que têm enorme relevância amazônica.
Recentemente, por exemplo, têm circulado convites e movimentações em torno de Neidinha Suruí, reconhecida por sua trajetória de defesa da Amazônia e dos povos originários, citada como nome que poderia entrar no jogo eleitoral em 2026.
E enquanto o PT organiza sua direção regional e tenta reestruturar base, também há movimentação orgânica em partidos aliados e no próprio campo de frente ampla.
Isso reforça um cenário: a esquerda em Rondônia pode estar num momento de “pré-construção” de liderança, com muitas peças se movimentando, mas sem um nome que reúna tudo de uma vez.




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