Do lixo ao desgaste: por que a coleta se tornou o ponto mais sensível da gestão Léo Moraes em Porto Velho
- 5 de fev.
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Crise na coleta expõe falhas de planejamento, decisões apressadas e um problema que atravessa gestões
A decisão da Prefeitura de Porto Velho de romper o contrato com o consórcio EcoPVH marca mais um capítulo de uma crise que se arrasta há meses e que transformou a coleta de lixo no principal desafio administrativo da atual gestão. O rompimento ocorreu após sucessivas falhas operacionais, incapacidade de cumprir rotas e um cenário urbano que passou a conviver com lixo acumulado, reclamações generalizadas e riscos à saúde pública.
Embora o prefeito Léo Moraes mantenha altos índices de aprovação e seja amplamente reconhecido por avanços em outras áreas da administração municipal, a questão dos resíduos sólidos começa a se consolidar como o calcanhar de Aquiles de seu governo.
A crise, no entanto, não surgiu do nada. Ela é resultado de uma sequência de decisões, disputas jurídicas e escolhas administrativas que colocaram a cidade em um verdadeiro limbo operacional.

O rompimento com a empresa conhecida como “Marquise”
Logo no início da gestão, a Prefeitura optou por rescindir o contrato com a empresa EcoRondônia Ambiental, conhecida popularmente em Porto Velho como Marquise. O contrato havia sido firmado durante a administração do ex-prefeito Hildon Chaves e foi alvo de questionamentos por órgãos de controle, especialmente em relação a valores e modelagem contratual.
Do ponto de vista legal, a decisão de anular o contrato tinha respaldo técnico. Do ponto de vista prático, porém, abriu-se um vácuo perigoso: a cidade ficou sem uma transição estruturada para um novo operador, em um serviço que não admite interrupções ou improvisos.
A aposta emergencial que não se sustentou
Para evitar a paralisação total da coleta, a Prefeitura recorreu a um contrato emergencial com o consórcio EcoPVH. A medida, comum em situações de urgência, acabou se tornando um dos principais focos de desgaste da gestão.
Desde as primeiras semanas, a empresa demonstrou dificuldades evidentes: frota insuficiente, falhas logísticas, equipes reduzidas e incapacidade de atender bairros inteiros com regularidade. O resultado foi imediato e visível: lixo acumulado, vias comprometidas e uma população cada vez mais insatisfeita.
Mesmo após notificações, advertências e tentativas de ajustes, o problema persistiu. A rescisão do contrato, agora confirmada, surge quase como um desfecho esperado de um modelo que nunca se mostrou plenamente funcional.
Disputa judicial e a cidade refém do impasse
O cenário se agravou com decisões judiciais conflitantes. Em determinado momento, houve ordem para que a EcoRondônia reassumisse temporariamente o serviço, decisão posteriormente suspensa por instâncias superiores. Enquanto isso, Porto Velho permaneceu refém de um embate jurídico-administrativo que pouco dialogava com a realidade das ruas.
Na prática, a cidade pagou o preço da instabilidade, convivendo com um serviço abaixo do aceitável e com a sensação de que nenhuma das soluções apresentadas era, de fato, definitiva.
Erro político ou falha de planejamento?
A crise da coleta levanta uma questão central: o problema foi a decisão de romper com o contrato anterior ou a forma como essa ruptura foi conduzida?
É possível reconhecer que havia irregularidades no contrato antigo e, ao mesmo tempo, questionar se a gestão atual subestimou a complexidade da operação de resíduos sólidos em uma capital do porte de Porto Velho. A escolha de uma empresa sem capacidade comprovada, aliada à ausência de um plano de transição robusto, criou um ambiente propício ao colapso do serviço.
Não se trata de personalizar erros ou desconsiderar os acertos da administração municipal. Trata-se de reconhecer que, em serviços essenciais, decisões técnicas precisam caminhar lado a lado com planejamento operacional rigoroso.
O desgaste que não aparece nas pesquisas — ainda
Apesar do impacto visível nas ruas, a crise do lixo ainda não se refletiu de forma significativa na popularidade do prefeito. Isso pode mudar. Historicamente, problemas ligados à limpeza urbana e à saúde pública têm alto poder de desgaste político, sobretudo quando se prolongam.
A coleta de lixo é um serviço silencioso quando funciona, mas ensurdecedor quando falha. E Porto Velho vive, hoje, exatamente esse barulho.
Mais que trocar empresas, é preciso mudar o modelo
O rompimento com a EcoPVH encerra um capítulo, mas não resolve o problema. A cidade precisa de uma solução estrutural, com:
licitação sólida e transparente;
empresas com capacidade técnica comprovada;
fiscalização permanente;
planejamento de longo prazo, sem improvisos emergenciais.
A crise atual deixa uma lição clara: corrigir erros do passado não pode significar criar fragilidades no presente. Porto Velho precisa virar essa página com responsabilidade, sob o risco de transformar um problema administrativo em um desgaste político duradouro.




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